
Bodoque
Dois Velhinhos.
_ O que você está fazendo?
_ Tirando a camisa.
_ Olha que a enfermeira não vai gostar...
_ Só quero ver se eu ainda sei fazer.
_ O quê?
_ Isto.
Pfaf.
_ Como se chamava isso, no seu tempo?
_ Pum sovacal.
_ Eu chamava de trombone axilar.
_ Trombone? Não tem nada a ver com trombone. Parece pum.
_ Eu não podia dizer pum.
_ Por que não? Na sua família não davam pum?
_ Davam, mas não se falava a respeito.
_ Incrível. Uma infância sem pum. Aposto também que não botavam o dedo no nariz. Tiravam meleca com cotonete.
_ Dedo no nariz podia, mas não na frente dos outros.
_ Como sua mãe chamava tirar meleca do nariz? Limpar o salão?
_ O assunto não era abordado na nossa casa.
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_ Bodoque. Você sabia fazer bodoque?
_ Acho que ...
Bodoque. Funda. Atiradeira.
_ Acho que não.
_ Era preciso encontrar uma forquilha perfeita. Depois prendia-se uma ponta de tira de borracha numa das pontas da forquilha, enfiava-se uma plaquinha de couro na tira de borracha e prendia-se na outra ponta da forquilha. E estava pronto o bodoque. Nunca mais me esqueci da sensação de ter um bom bodoque feito por mim nas mãos. Quer saber de uma coisa? Nunca mais tive a mesma sensação de poder . Eu já lhe contei que fui um executivo importante, não contei?
_ Várias vezes.
_ Já comandei 600 empregados. Já tive a vida de mais de mil pessoas nas minhas mãos, ou na mão que assinava os cheques. Fui um dos pró-homens da República. Aconselhei presidentes. Podia derrubar presidentes, se quisesse. E, no entanto, nunca tive sensação de poder parecida com a de segurar uma forquilha, estender a tira de borracha com uma pedra colocada na plaquinha de couro, soltar a plaquinha e derrubar, não um presidente, mas um passarinho.
_ Você matou muitos passarinhos?
_ Matei, mas isso não interessa. O importante é que eu daria tudo , tudo que ganhei na vida, para ter um bom bodoque novo nas minhas mãos. Para ter o mesmo poder.
_ Por que não procuramos uma forquilha perfeita?
_ Como?
_ Esta tarde, quando nos levarem para passear no jardim.
_ Não, não. Você acha que uma forquilha perfeita se encontra assim? Ainda mais de cadeira de rodas? Não, não. Esquece.
_ Olha, a enfermeira está vindo. Melhor botar a camisa.
_ Vamos recebê-la com um dueto de puns sovacais.
_ Você acha?
_ Vamos, vamos. Tire a camisa!
DONNA ZH 6 de Fevereiro de 2011